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 APRESENTAÇÃO

“Continuam, os profissionais de museus, falando apenas de si mesmos e para si mesmos? Que reconhecimento têm eles da sociedade? No universo de trabalhadores, como nos situamos e agimos?”. Com esses questionamentos, a museóloga WaldisaRússio problematizou, em 1989, a função dos museus e a ação política de seus agentes em um período em que grande parte das práticas museológicas e de ensino da Museologia se sustentava em discursos conservadores e, por vezes, antidemocráticos. Exatamente trinta anos depois, essas perguntas ainda continuam apropriadas para traduzir o lugar dos museus e do ensino dos processos museológicos em um mundo marcado pela polarização de posicionamentos políticos, por intolerâncias diversas e pela crescente precarização dos direitos sociais. Observa-se que alguns dos aspectos supostamente consolidados da jovem democracia brasileira e latino-americana novamente estão sob ameaça.

Na década de 1970, quando os países latino-americanos estavam sob a égide dos regimes ditatoriais, o campo da Museologia, impactado pela crítica dos movimentos sociais, movimentos de contracultura e por diferentes discursos de descolonização, apresentou como resposta as reflexões da Mesa Redonda de Santiago sobre o papel social dos museus. Uma das propostas contemplava a criação de uma Associação Latino-Americana de Museologia visando a articulação de diferentes iniciativas que evidenciavam a integralidade do patrimônio e a potência política de múltiplas experiências museológicas.

No contexto brasileiro, o campo dos museus e da Museologia evidenciou profundas transformações a partir do processo de redemocratização, especialmente em virtude dos impactos das discussões sobre a diversidade cultural, o poder da memória e os direitos e as liberdades fundamentais inscritos na Constituição Federal de 1988. Temáticas como o reconhecimento dos saberes das populações tradicionais; o tombamento de bens até então não-consagrados e o registro do patrimônio imaterial; e os debates sobre novos direitos sociais e políticos; contribuíram para a ampliação dos estudos das interseccionalidades de gênero, classe, raça e sexualidade.  A partir dessas transformações pautadas no exercício da diferença, houve um movimento coletivo e de alcance internacional impactando a discussão sobre processos museais populares e comunitários.

Em sequência, tentou-se delinear os contornos epistêmicos dessas experiências que contribuíram para que o Brasil se tornasse um dos principais laboratórios de articulação entre museus e movimentos sociais, fator que propiciou itinerários significativos que resultaram, por exemplo, na instituição da Política Nacional de Museus, na criação de cursos de Museologia nas cinco regiões do país e na eclosão de diferentes pontos e redes de memória e Museologia Social.

Se por um lado essas experiências impactaram o ensino e a pesquisa contemporânea, em outra perspectiva também são profundamente impactadas por uma nova dinâmica de governabilidade, de reformas políticas e de transformações na agenda das políticas culturais em âmbito nacional e internacional. Entre deslocamentos simbólicos e fluxos migratórios, evidencia-se uma crise na democracia representativa com fortes consequências na política da memória, caracterizada por fenômenos transnacionais de opressão, pelo crescimento de grupos ultraconservadores e pelo silenciamento dos espaços de expressão da diferença.

Especificamente no âmbito dos museus surgem debates em torno da repatriação de coleções, de questões éticas sobre os “objetos sensíveis” museografados, das políticas de musealização do efêmero, da cibermuseologia; da representação de minorias nem sempre numéricas e das múltiplas formas de censura nos espaços de memória. Em meio a essas tensões, nas últimas décadas surgiram estratégias de enfrentamento realizadas no campo epistêmico da Museologia nas interfaces com as temáticas dos direitos humanos, o ensino e a ética profissional. Essas experiências evidenciam alternativas de resistência e de reafirmação dos valores democráticos, tornando-se exemplares na reconfiguração de memórias silenciadas e de subjetividades reprimidas.

Esse contexto evidencia um momento fecundo para a problematização do presente e do futuro da democracia. A própria história dos museus e do colecionismo, como fruto do empreendimento colonialista, reveste-se de temática oportuna para refletirmos sobre a geopolítica do conhecimento. Se atualmente existem retrocessos em relação às conquistas democráticas efetuadas nas últimas décadas, também existem resistências e utopias oriundas de diversas práticas culturais. Sem dúvida, surgem desafios para a Universidade, para a Museologia e para os museus: Quais os compromissos da Museologia na atual conjuntura política? Que alterações têm ocasionado na ação do museólogo? Em que medida as transformações na esfera pública evidenciam perspectivas de compreensão de nosso objeto do conhecimento? Quais as novas demandas por musealização, acessibilidade, educação museal e representatividade? Em que medida os professores e pesquisadores do campo da Museologia têm contribuído ou desestimulado estratégias de integração, reflexões sobre a pluralidade da representação e os debates sobre a ampliação/restrição dos espaços democráticos?

Algumas das respostas a esses desafios podem ser encontradas na própria história da Museologia, reconhecendo as estratégias de profissionais que, no passado, ousaram lutar em prol da democratização da política da memória e contra as diversas formas de preconceito. Outras reflexões surgirão dos diálogos promovidos no IV Seminário Brasileiro de Museologia, cuja temática consiste em oportuno convite para que professores, pesquisadores e grupos de interesse reflitam sobre os desafios da área em um contexto de profundas transformações sociais, políticas e epistêmicas.

Evidentemente a realização do seminário em Brasília se transforma em ato fortemente emblemático na medida em que, na capital do país,é onde se decidem questões fundamentais para o futuro da democracia e que, por sua vez, reverberam nos diálogos, nas tensões e nos sentidos atribuídos ao mundo dos museus. Não menos significativo é ser sediado na Universidade de Brasília, instituição que protagonizou alguns dos principais movimentos de resistência e de luta em defesa dos ideais democráticos no Brasil.

O IV Seminário Brasileiro de Museologia pretende se consolidar como um amplo espaço de debates no intuito de compreender em que medida a produção científica tem acompanhado as transformações das últimas décadas e os compromissos assumidos em defesa da democratização do conhecimento. Isso é importante no momento em que surgem iniciativas visando analisar as heranças e os paradigmas da produção do pensamento museológico e suas interfaces com as diversas áreas do saber. As reflexões do seminário pretendem evidenciar os compromissos éticos, os dilemas contemporâneos e as diferentes propostas teóricas e metodológicas que ganham força no campo da Museologia, reconhecendo os processos museológicos como espaços de poder que produzem modelos disciplinadores e práticas, poéticas e políticas libertárias.

  
 

 
 
SOBRE A MARCA DO EVENTO
 
 

122Em 1996, o artista visual Bené Fonteles realizou uma intervenção na escultura A Justiça de Alfredo Ceschiatti. Fonteles é um dos artistas contemporâneos mais importantes da história da arte brasileira, com forte presença e atuação em Brasília, onde vive. Dedicado às políticas de proteção da natureza (fundou em 1987, o Movimento Artistas pela Natureza), às cosmogonias e políticas indígenas, Fonteles colocou um cocar dos índios Karajá, de Tocantis, sobre a célebre escultura de Ceschiatti, criada em 1961, para a Praça dos Três Poderes. Naquela ocasião, ao lado de representantes de diferentes povos indígenas, o artista leu o Manifesto de Revogação do Decreto 1775/1996, publicado pelo Ministério da Justiça, que alterou o processo administrativo de demarcação das terras indígenas. Luta capitaneada, naquele momento, por diferentes organizações e pelo “Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil” (CAPOIB). Numa coalização entre ato poético e ativismo, a intervenção tornou-se um efêmero momento de encontro entre a história de Brasília, sua configuração social e política, com a extensa luta de minorias oprimidas. “Dotando a Justiça branca da sabedoria ancestral indígena (...) Fonteles doa sentido à ação política, em uma camada específica de significação do ato da representação dos povos indígenas” (Pugliese, 2013, p.30). Tal gesto “mitopoético”, que surge como o encontro e o conflito entre culturas, serve-nos como inspiração para a identidade visual do IV SEBREMUS. Inspiração que busca rememorar o longo processo de resistência e de reafirmação dos valores democráticos; de visibilizar as reconfigurações de memórias silenciadas e de subjetividades reprimidas.

Referência: PUGLIESE, V. Os Sudários de Bené Fonteles, o Chemin de la Croix de Henri Matisse e as Stations of the Cross de Barnett Newman: pathos e anacronismo na historiografia da arte. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Arte. Universidade de Brasília, 2013.

  



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CRONOGRAMA:

Etapa 1   - 03/10/2018  (  Divulgação do Edital.   Acesse Aqui !!!!  ) 

 Etapa 2 -  09/12/2018 ( Divulgação das Grupos de Trabalho aprovados pelo Comitê Científico e início das inscrições de propostas de Comunicações  ) 

                    Resultado dos GTs   AQUI !!!!

                     Envio de propostas de comunicação ( Comunicação Oral/ Artigo e Pôster/ Resumo)   AQUI !!!

Etapa 3    -  24/02/2019   ( Data limite para envio das propostas de Comunicação, em forma de resumo expandido - entre 1.800 (hum mil e oitocentos) e 2.500 (dois mil e quinhentos) caracteres com espaços, por meio da ficha de submissão, segundo instruções do item 5. Não haverá cobrança de taxa de submissão) .

Etapa 4 - 20/03/2019 ( Data limite para envio, pelos coordenadores dos Grupos de Trabalho, dos títulos das comunicações que comporão sua sessão e sua organização em mesas) .

 Etapa 5  - 10/04/2019    ( Divulgação das comunicações selecionadas pelos coordenadores dos Grupos Temáticos) .

Etapa 6 -  10/05/2019 ( Data limites para pagamento de inscrição dos comunicadores selecionados).

Etapa 7   - 01/06/2019      (Divulgação da programação preliminar do IV SEBRAMUS).

Etapa 8   -  30/06/2019  ( Divulgação pública da programação final do IV SEBRAMUS).

Etapa 9 - 01 a 29/07/2019  ( Período de inscrições para ouvintes. Acesse Aqui !!!!

Etapa 10 – 29/07/2019 a 01º/08/2019  ( Realização do IV Seminário Brasileiro de Museologia)

Etapa 11 – 19/08/2019 ( Entrega do artigo em versão final para publicação, segundo as normas descritas no item 9 do edital).

 


 

COMISSÃO DE ORGANIZAÇÃO DO IV Seminário Brasileiro de Museologia / Universidade de Brasília ( UnB)
Profa. Dra. Ana Lúcia de Abreu Gomes ( UnB)
Profa. Dra. Andrea Considera ( UnB)
Prof. Dr. Clovis Carvalho Britto - coord. ( UnB)
Profa. Ms. Deborah Silva Santos( UnB)
Profa. Ms. Elizângela Carrijo( UnB)
Prof. Dr. Emerson Dionisio Gomes de Oliveira - coord. ( UnB)
Profa. Dra. Monique Magaldi - coord. ( UnB)
Profa. Dra. Maria Margaret Lopes( UnB)
Profa.Ms. Marijara Souza Queiroz( UnB)
Profa. Ms. Luciana Magalhães Portela( UnB)
Profa. Ms. Silmara Küster de Paula Carvalho( UnB)

 

COMITÊ CIENTÍFICO do IV Seminário Brasileiro de Museologia 1

Dra. Alice Semedo – Universidade do Porto, Portugal
Dr.Bernardo Javier Tobar Quitiaquez - Universidade de Cauca, Colômbia
Dr.Bruno César Brulon Soares – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Dra.Cláudia Penha dos Santos – Museu de Astronomia e Ciências Afins
Dr.Clovis Carvalho Britto – Universidade de Brasília/Universidade Federal da Bahia
Dra.Elaine Reynoso Haynes – Universidade Nacional Autônoma do México, México
Dra.Irina Podgorny – Universidade Nacional de La Plata, Argentina
Dr.Jesus Pedro Lorente – Universidade de Zaragoza, Espanha
Dra.Luisa Gertrudis Duran Rocca – Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Dra.Maria Lúcia de Niemeyer Matheus Loureiro – Museu de Astronomia e Ciências Afins
Dra. Maria Margaret Lopes - Universidade de Brasília / Universidade de São Paulo 
Dr.Miruna Achim - Universidade Autônoma Metropolitana, México 
Dr.Vagner Carvalheiro Porto - Universidade de São Paulo

  

 


LOCAL:  Campus Darcy Ribeiro - Universidade de Brasília (UnB)

Data do evento:   29 de julho a 01 de agosto de 2019

E-MAIL:   Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 


 

REALIZAÇÃO:

CURSO DE MUSEOLOGIA DA UnB

REDE DE PROFESSORES E PESQUISADORES EM MUSEOLOGIA - Rede

 

REDE REDE DE PROFESSORES E PESQUISADORES DA MUSEOLOGIA

Prof. Ms. Bruno Melo de Araújo - UFPE 

Profa. Ms.Gleyce Kelly Heitor - UFG

Profa. Dra. Monique Magaldi - UnB

Profa. Dra.Verona Campos Segantini - UFMG